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Fátima e Diogo - Desautorizando o Sofrimento

Por Mayana Zatz

Vocês devem estar se perguntando: "O que Fátima e Diogo têm a ver com genética?" Tudo a ver. Diogo e sua mãe, Fátima, são os protagonistas de um filme que acabamos de lançar em Natal. O auditório da Universidade Federal do Rio Grande do Norte foi pequeno para as mais de 400 pessoas que disputavam um lugar na noite da estreia.

Diogo, que acaba de se formar em sociologia, tem como todo jovem muitos planos para o futuro. O que o torna tão especial? Ele tem distrofia muscular de Duchenne, uma doença genética progressiva que causa a perda da musculatura, levando seus portadores a uma cadeira de rodas por volta dos 10 anos.

Fátima, com seu modo totalmente anticonvencional de lidar com a doença de um filho, representa para nós a personalização de uma hipótese clínica proposta pelo médico psicanalista Jorge Forbes: Desautorizando o sofrimento padronizado. Temos testado essa hipótese na Clínica de Psicanálise do Centro de Genoma Humano (USP) e os resultados têm nos animado muito. Vamos contra uma tendência social das pessoas se acomodarem duplamente: os que sofrem, na resignação, e os que cuidam, na compaixão.

O filme idealizado pelo psicanalista - que você pode assistir aqui - mostra por meio da história dessas vidas, o cerne do trabalho que temos desenvolvido na colaboração genética-psicanálise. Doutor Jorge Forbes conversou comigo sobre o filme:

VEJA.com - Doutor, o que é essa sua hipótese sobre "desautorizar o sofrimento"?

Jorge Forbes - Ah, seria ótimo desautorizar o sofrimento! Nosso projeto é menos ambicioso e mais realista: é o sofrimento padronizado que queremos desautorizar... Partimos da seguinte constatação: a sociedade provê tanto alegrias, quanto sofrimentos padronizados. Eles funcionam sempre que uma pessoa não sabe o que fazer. O sujeito vai tirar férias, sua mulher e seus filhos ficam olhando para ele na maior expectativa, até que, pronto, lá vem uma Disneylândia que o livra dessa expectativa ameaçadora. É "ótimo ir à Disneylândia" - ao menos é o que muita gente diz - e isso o livra de toda responsabilidade, amém.

Do lado do sofrimento funciona parecido: quem não tem um amigo que vive aflito com um mal estar indefinido até o belo dia em que o encontramos confortado e ele nos explica, para nosso espanto, que ele só tem um cancerzinho? O sofrimento padronizado, "só um cancerzinho", acalma, pois a ignorância do que se tem é, muitas vezes, pior que o conhecimento de uma doença grave, como nesse caso. Em resumo, é como ir a velório e ter que chorar ao menos um pouquinho.

Agora, vejamos o que está ocorrendo no domínio da genética. Ela está mudando a pergunta que endereçamos ao médico. Se antes íamos nos consultar para saber o que nos ocorreu, razão de não estarmos nos sentindo bem; hoje, vamos ao médico para saber o que vai acontecer! E aí é que verificamos que uma pessoa ao ser diagnosticada de algo que vai lhe ocorrer dali a uns dois anos, por exemplo, uma paralisia, já sai mancando da sala. Com isso cria-se um duplo problema: a pessoa piora imediatamente e dá chance para a moléstia progredir mais rapidamente. Daí, querermos desautorizar o sofrimento, este sofrimento que está à mão para se vestir, mortalha preguiçosa da vida.

O senhor acha que essa hipótese de trabalho aplica-se somente a pessoas afetadas por doenças genéticas?

Não, de jeito nenhum. O que nós pretendemos é mostrar que se até aqueles que teriam uma boa desculpa para se acomodar frente à responsabilidade de viver, não o fazem, com menos razão outros podem pensar que a vida tem piloto automático. Como diria Lacan: 'De nossa condição de sujeito somo sempre responsáveis".

O que o senhor viu em Fátima, quando se deparou com ela no Centro do Genoma, que o fez pensar que ela seria uma prova viva de sua hipótese?

Um blink, como se diz em inglês, um piscar de olhos, uma certeza instantânea. Quando de passagem pelo corredor, ouvi a forma que aquela senhora comentava sobre sua vida, o pouco que ouvi, o sorriso, a aposta, a ousadia, enfim, não sei bem, foi uma mistura de tudo isso. Algo presente nas pessoas que suportam a sua singularidade, a sua diferença.... foi isso que vi nela e me convenceu de imediato.

Como o filme emociona as pessoas?

A chance de assistir a uma história única emociona pela verdade da experiência humana e pela certeza que isso também é possível ao espectador. Fazer de sua vida uma história digna de ser contada.

Fonte: Revista Veja online