Quem somosDiretoriaDistrofiaAjudarAgendaNotíciasEntrevistasAcadim Responde
 
 

Viagra para a distrofia muscular e publicidade por uma ideia iluminada

Por: Dr. Jeoffry B. Gordon, Mestre em Saúde Pública

Atuando como médico de família há mais de trinta anos, sempre procurei conceituar as doenças além do que a literatura médica padrão ordena. Dessa forma, fiquei muito feliz pela possibilidade de descobrir um novo tratamento para a distrofia muscular quando, há cinco anos, e pelos motivos de costume, receitei um pouco de Viagra a um antigo paciente meu de 57 anos de idade, portador de distrofia muscular de cinturas.

Em junho de 2005, este paciente retornou para dizer-me que por um período de dois a cinco dias após ter tomado o Viagra, sentiu-se substancialmente mais forte com relação a todos os seus músculos. Ele tinha mais equilíbrio, conseguia erguer-se da cadeira com mais facilidade, e agora conseguia fazer exercícios de flexão em pé contra uma parede. Passados três dias, tudo desaparecia gradualmente, e ele retornava ao estado inicial. Este fenômeno podia ser reproduzido com doses adicionais do medicamento.

Ao longo dos últimos anos dei a ele todas as minhas amostras de inibidor de PDE5 (*) e isso o ajudou a manter sua independência funcional.

(* a fosfodiesterase tipo 5, ou  sildenafil, é o princípio ativo do Viagra)

É claro que por apresentar uma incapacidade física tão grave, ele fazia parte do seguro de saúde Medicaid, e era impossível que o seguro (e suspeito que qualquer outro seguro saúde) pagasse pelo caro medicamento, caso fosse indicado para outra finalidade que não a disfunção erétil

Impressionado como estava por este potencial avanço terapêutico, discuti repetidamente o assunto com representantes da indústria farmacêutica, que me disseram que levariam o assunto a seus superiores. Eventualmente conversei com um diretor médico da Pfizer, que me pareceu ter outras preocupações na cabeça. Em conjunto com um estudante de medicina, escrevi um “estudo de caso” e o submetemos ao JAMA (Jornal da Associação Médica Americana) e ao Neurology, mas fomos rejeitados em ambas as ocasiões.

Apresentei o caso ao neurologista local, que trabalhava com o grupo local afiliado à Associação Americana de Distrofia Muscular, e eventualmente ao diretor médico da MDA, mas não demonstraram interesse. Contatei um pediatra local da escola de medicina da universidade local, que trabalhava com doenças musculares, e também um neurologista local que fazia pesquisas clínicas, e ambos recusaram-se a dar um Viagra a um paciente selecionado sem o devido amparo legal.

Em 20 de fevereiro de 2008 o jornal The New York Times publicou um artigo intitulado “Sem uma cura, novos rumos para uma doença muscular”, sobre a frustração quanto ao progresso rumo à melhora dos tratamentos  dos pacientes com distrofia muscular. Eu enviei mensagens de e-mail a todos os médicos mencionados no artigo, nacionalmente renomados, e obtive apenas uma única e desinteressada resposta.

Desta forma, senti-me surpreso e satisfeito quando meu paciente trouxe-me uma cópia da edição de julho-agosto de 2010, da revista da Associação Americana de Distrofia Muscular, sobre pesquisa e saúde, que trazia na página 20 um artigo informando que a MDA estava patrocinando as pesquisas do Dr. Ronald Victor, um especialista em doenças cardiovasculares do Centro Médico Cedars Sinai, em Los Angeles, para testar os efeitos do Tadalafil (Cialis) em homens com distrofia muscular de Becker. O artigo informava que a MDA havia patrocinando dois estudos que demonstraram que substâncias químicas do tipo PDE5 melhoraram as funções cardíacas e musculares em camundongos deficientes em distrofina.

Quando falei com o Dr. Victor, ele ficou surpreso e excitado ao saber da existência do que aparentemente era um caso clínico bem sucedido, que apoiava sua futura pesquisa, e meu paciente foi colocado em contato com ele. O Dr. Victor é, de fato, um cardiologista, e chegou a esta pesquisa na tentativa de melhorar a função cardíaca com os inibidores PDE5, e não era um especialista em distrofia muscular.

Neste caso, como tantas vezes ocorre em outras descobertas da ciência e da medicina clínica, a inovação tem múltiplas fontes independentes e contemporâneas. Não estou escrevendo este texto para reivindicar a prioridade da descoberta, mas sim para deixar claro o quão frustrante foi trazer estas descobertas acidentais (casuais) à atenção do mundo médico, e validá-las.

Teria a rigidez das nossas regras (das provas, publicações, universidades e direito) sufocado a comunicação a ponto de perder-se a percepção de potenciais novas descobertas?

O Dr. Jeoffry B. Gordon é um médico de família.

 

Tradução : Marcelo D. P. de Oliveira. contato: trad.mdpo"arroba"gmail.com

Fonte: http://www.kevinmd.com/blog/2010/07/viagra-muscular-dystrophy-publicity-accidental-insight.html#comments